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O que o filme “O Poço” nos fala sobre a vida real?

Ao assistir o filme “O Poço” , nome original “The Plataform”, dirigido pelo diretor Galder Gaztelu-Urrutia, estrelante em longa metragens, fiquei pensando o quanto ele se parece com a vida real. Os níveis sociais e econômicos, a falta de empatia entre as pessoas quando literalmente “o bicho tá pegando”, além de me ver identificando no filme alguns ditados populares tais como, “farinha pouco meu pirão primeiro” ou “é preciso chegar ao fundo do poço pra reagirmos”, coisas desse gênero.

O diretor foi objetivo em sua mensagem, cruel mas bastante pertinente em relação as questões que assolam a contemporaneidade, trazendo notícias de um mundo cruel, dividido por níveis; os de cima, os de baixo e os que caem, onde os de cima não falam com os que estão nos andares mais baixos e os de baixo não devem falar com os que estão em cima, simplesmente porque esses não lhes dão ouvidos, isto é, não lhes dão voz. Muito curioso que isso nos remeta à condição de precariedade e desvalia na qual de alguma forma todos nós vivemos imersos e circundados, não é mesmo?

Curioso também é que esse filme esteja sendo um sucesso de audiência justamente no momento em que estamos passando por uma crise mundial, onde um vírus invisível nos impõe uma condição de quarentena, onde a responsabilidade social é cobrada a todo tempo, onde temos que pensar no coletivo, onde o que é meu deixa de ser tão essencial porque pra se ter o que era meu (antes da quarentena) eu preciso pensar no outro, no coletivo. Caso contrário, nada feito. Nessa quarentena, estamos nos dando conta de que “O buraco é mais embaixo”, simmm …bem mais embaixo. E por que será que nos identificamos com a mensagem do filme? Na prisão vertical, nesse mundo de níveis, a fome de uns se deve pelo simples fato de que alguns comeram demais, muito mais do que necessitavam na verdade. Uma pequena porção diária seria a solução para que ninguém passasse fome. E nós? De que fome estamos falando? talvez da fome da cura, da fome de termos nossas vidas de volta, tal como antes, mas só a teremos se nos sacrificarmos.

O Poço também mostra claramente que quando alguns padrões se impõe, a barbárie é inevitável. A lei ali se configura de forma parcial, como não guardar comida e morrer de frio ou calor se ela for desobedecida, ou então acordar em um novo andar a cada mês, e aparentemente sem nenhum critério. Surpresa total e sempre, nos convidando a pensar que um dia estamos em cima e no outro… ulalá… estamos embaixo, como na vida, ahh esse mundo não é redondo por acaso, não é mesmo? Mas internamente, em cada andar, entre os prisioneiros, vale tudo para sobreviver; matar, comer o outro, torturar, estuprar, roubar, enfim…

Protagonizado pelos personagens Trimagazi e Goreng, o filme assusta pela sua narrativa bruta, cruel e avassaladora, muito bem interpretada por ambos. Mas de alguma forma, as diferentes personalidades e formas de encarar a vida, tem aqui sua serventia, pois enquanto Trimagazi, de um jeito bem cruel, apresentou a Goreng a realidade fazendo dele um” sujeito mais forte, por outro lado, o final do filme e a “mensagem” levada para o nível zero só foi possível, devido a forma diferente de encarar a vida de seu companheiro de cela, que pensava no outro, que se importava com o próximo, que acreditou que algo podia ser feito, que não se rendeu ao desamparo e tomou uma inciativa pra que as coisas mudassem.

Se vocês me perguntassem se eu gostei do filme, eu sinceramente não saberia responder. Acho que esse não é um filme para agradar, mas para fazer pensar, refletir sobre a condição humana. Tal qual a Psicanálise, que desarticula, incomoda e faz refletir, acho que o diretor sugere isso, nos instiga a pensar a partir do nosso incômodo. Te convido a vir se incomodar assistindo esse filme. Quanto ao final… cada um que dê sentido, o seu próprio sentido.

Andréa Pinheiro Psi- Psicanalista- (24)99316-8982

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