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TRANSTORNOS ALIMENTARES, INSATISFAÇÃO DA IMAGEM CORPORAL E A MÍDIA: PARTE I

 

O significado da alimentação vem mudando ao longo do tempo, o alimento antes visto como um objeto para nutrir e sobreviver, hoje, além dessas funções, é visto como objeto de prazer e de saúde. Para a psicanálise, a maneira como cada um de nós se alimenta mantém relação estreita com o que estamos vivendo emocionalmente e com o modo de como nos relacionamos com o mundo e com a vida, ou seja, não é apenas um distúrbio alimentar, mas uma junção do comer e ser. Apesar de parecer óbvio essa afirmação é importante explorarmos o comportamento alimentar do sujeito e sua relação com seu próprio corpo, com suas emoções e com o olhar do outro. Esse olhar que muitas vezes interfere negativamente a ponto de causar perturbações significativas como os transtornos alimentares, principalmente anorexia nervosa e bulimia nervosa.

Os transtornos alimentares (T.A.), segundo DSM 5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ᵅ edição), são caracterizados por uma perturbação persistente na alimentação ou no comportamento relacionado à alimentação que resulta no consumo ou na absorção alterada de alimento e que compromete significativamente a saúde física ou o funcionamento psicossocial. A obesidade não está inclusa no DSM-5 como um transtorno mental.  Ela é uma condição crônica resultado do excesso prolongado de ingestão energética em relação ao balanço calórico. Uma gama de fatores genéticos, fisiológicos, comportamentais e ambientais, que variam entre os indivíduos, contribuem para desenvolvimento da obesidade. A mesma está categorizada, na 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), no item de doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas. Entretanto, existem associações robustas entre a obesidade e uma série de transtornos mentais como, por exemplo: transtorno de compulsão alimentar, transtorno depressivo e esquizofrenia (DSM-5, 2013).

Atualmente, é muito comum vermos bullying relacionado ao peso, ao fato do indivíduo ser gordo, pois há uma pressão social quanto aos padrões corporais.  Esses atos, podem muitas vezes levar ao surgimento da insatisfação da imagem corporal e uma baixa autoestima, e, consequentemente, ocasionar comportamentos inadequados para auxiliar na perda de peso, como: dietas restritas, jejuns prolongados, uso de medicações não prescritas, e, possivelmente, desencadear transtornos alimentares.

Esses transtornos estão associados a uma preocupação com imagem corporal, tanto em relação ao peso quanto em relação à forma, associados a outras comorbidades psiquiátricas, principalmente com a depressão, ansiedade, dependência química, transtornos de personalidades (principalmente transtorno de personalidade limítrofe), entre outras, assim como associados e influenciados pela cultura e pela mídia.

Quanto à etiopatogenia, não há uma única etiologia responsável, acredita-se no modelo multifatorial, com contribuição de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, socioculturais, assim como aspectos da personalidade.

Não se deve deixar de mencionar como um dos aspectos etiológicos a relação intrafamiliar que pode influenciar tanto no surgimento quanto na manutenção dos transtornos alimentares, pois a insatisfação corporal expressada pelos pais, ou outros familiares, assim como seus comportamentos alimentares, tem influência sob as gerações seguintes. Afinal, é muito comum ouvirmos que bebê bonito e saudável é o bebê gordinho, e ao chegar à adolescência surge uma pressão para esse bebê gordinho emagrecer para atingir um suposto sucesso.

Segundo C.M.Morgan e A.M. Claudino Azevedo: “A pressão cultural para emagrecer é considerada um elemento fundamental da etiologia dos transtornos alimentares, que interage com fatores biológicos, psicológicos e familiares para gerar a preocupação excessiva com o corpo e o pavor doentio de engordar”.

Observa-se na atualidade uma mudança constante, rápida e rígida na moda, no modo de se vestir, de se portar, no tipo de alimentação “mais adequada”, nas formas corporais que estimulam a produção de corpos ora magros, ora musculosos, ora plus size, tornando muitas vezes o corpo um objeto, deixando-se de lado sua personalidade, o seu Eu e os seus prazeres em busca dessa satisfação corporal. Ou seja, há uma sujeição do indivíduo ao decreto da moda em detrimento a sua saúde e seu bem-estar, levando a uso de medicações não prescritas, a atividades físicas exageradas, dietas da moda e a um isolamento social devido à vergonha, baixa autoestima e insatisfação com sua imagem corporal, promovendo um distanciamento cada vez maior entre corpo idealizado, inatingível e o corpo vivido, o corpo real.

 

Autora: Dra. Camila Santos – Psiquiatra

 

Agendamentos em Valença:

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