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O DOLOROSO E ESPERANÇOSO PROCESSO DA ADOLESCÊNCIA.

O Psicanalista e médico pediatra Donald Woods Winnicott, que exerceu grande influência mundial na clínica psicanalítica com crianças e adolescentes nos mostra o quanto é complexa a compreensão sobre o processo da adolescência, essa passagem da vida infantil para a adulta.

A adolescência tem sido considerada uma fase do desenvolvimento humano em que questões como a busca de identidade, sexualidade, irresponsabilidade, desejo de se afastar das figuras parentais, associação a um grupo ou tribo, rompimentos com tradições surgem como problemas e desafios desse período.

A questão da adolescência é abordada por diversas perspectivas teóricas. Algumas  consideram as motivações inconscientes como as bases das determinações dos comportamentos, sentimentos e pensamentos, tais como a psicanálise, a Psicologia analítica de Jung e até mesmo a teoria comportamental-cognitivista atual, geradas pela história afetiva do indivíduo. Iremos focar a questão do adolescente do ponto de vista de Winnicott, pois ele formulou uma teoria do amadurecimento afetivo que é mais ampla que a teoria da sexualidade se apoiando no papel da mãe e em um ambiente sustentador que possibilite que as principais necessidades sejam reconhecidas e atendidas.

O amadurecimento pessoal, segundo Winniccott, citado por Oliveira e Fulgêncio (2010) segue uma linha que vai da dependência absoluta do início para a independência relativa da maturidade. Esse processo é impulsionado por duas tendências básicas: a necessidade de ser e a tendência inata à integração. O bebê nasce extremamente imaturo, e sua existência depende totalmente do ambiente, seguindo uma série de conquistas ou integrações que o levarão a ser uma pessoa inteira que se relaciona com os outros como pessoas inteiras. Esse ambiente é a mãe que, inicialmente, deve ter uma identificação com seu bebê e atendê-lo nas suas necessidades.

Winnicott enfatiza o papel de uma mãe suficientemente boa,uma pessoa capaz e preparada para reconhecer a fragilidade e dependência do seu bebê, segurando, amparando, adaptando-se para sustentar o que ele chamava de “ser em desenvolvimento”, nos estágios mais precoces da vida. Esses estágios iniciais são fundamentais para que o bebê se integre, transformando essas integrações em conquistas para o amadurecimento pessoal.

Assim, a saúde mental de um indivíduo é fundada pela mãe em sua experiência de vida e de cuidados com seu bebê, pois ela é o primeiro ambiente que se apresenta a ele.

As fases do amadurecimento são:

  • dependência absoluta (mais ou menos os quatro primeiros meses de vida do bebê);
  • dependência relativa (incluindo a fase do desmame, da transicionalidade, do uso do objeto e da conquista do EU SOU);
  • a fase rumo à independência (também denominada fase do concernimento);
  • a fase edípica e o período da latência;
  • a adolescência;
  • a fase de maturidade; e
  • a velhice.

Segundo Frota, A.N (2006), partindo do pressuposto de que houve um ambiente facilitador satisfatório, como condição para o ínicio do crescimento e do desenvolvimento individuais, ocorre o crescimento emocional e gradativamente, o indivíduo vai se tornando independente. Para Winnicott, todos os fenômenos humanos, sejam eles sadios ou não, sempre mantêm relação com o crescimento e amadurecimento.

Este processo de construção de uma subjetividade própria é longo e artesanal, de acordo com FROTA, A.N.( 2006),  sendo tarefa que não se completa jamais, e que justifica a sensação de incompletude do homem. A base para uma saúde mental adulta é construída na infância e, também, na adolescência. Alguns sinais de saúde seriam compreendidos como um contínuo crescimento emocional; por exemplo, o desenvolvimento no sentido de integração do si mesmo, o caminhar em busca da independência relativa, o desenvolvimento em termos dos instintos e a riqueza da personalidade do indivíduo.

Oliveira e Fulgencio (2010), cita as principais afirmações que Winnicott fez sobre adolescência:

»      a principal característica do adolescente é a sua imaturidade;

»      o adolescente é um ser isolado, que deseja ser alguém em algum lugar e sentir -se real;

»      ele não aceita falsas soluções, lições de moral e conselhos;

»      ele tem necessidade de ser rebelde em um contexto que, confiadamente, acolha também a dependência;

»      a cura e superação desse período vem com o passar do tempo (desde que existam cuidados ambientais adequados).

Um fator importante para Winnicott, é que o adolescente retoma todas as dinâmicas que caracterizam as fases anteriores, em um processo de idas e vindas, acrescidas de potências que não estavam presentes na primeira infância: a potência física para agredir e procriar.

Na adolescência ocorre uma forma diferente de estar e de se-ver-no-mundo. É um momento de se fazer uma nova adaptação à realidade.  A vulnerabilidade do eu cria uma nova dependência em relação aos cuidados, amparo e sustentação do ambiente, pois o adolescente, por ser imaturo, padece do sentimento de irrealidade, e sua luta indica este caminho: ser alguém e constituir-se em um eu dentro de um grupo, por meio de um ambiente firme, seguro e suficientemente bom. Juntamente com isso, surgem a astúcia, arrogância, hostilidade, mentira, ironias e a necessidade de confronto com a sociedade.

Winnicott afirma, de acordo com Oliveira e Fulgencio, ( 2010),  que a principal característica do adolescente é a sua imaturidade. Essa imaturidade aparece tanto na oscilação entre ser e não ser dependente quanto na falta de compreensão do ambiente como um todo, das situações como dependentes umas das outras, das ações como tendo consequências etc. A imaturidade também torna possível que muitas experiências e muitas propostas mais criativas possam ser feitas, e Winnicott considera que essa possibilidade é algo que pode contribuir para o próprio desenvolvimento da sociedade.

Nela [na imaturidade do adolescente] estão contidos os aspectos mais excitantes do pensamento criativo, sentimentos novos e diferentes, ideias de um novo viver. A sociedade precisa ser abalada pelas aspirações daqueles que não são responsáveis” (WINNICOTT, 1971, p. 198 citado por OLIVEIRA, D.M.; FULGENCIO, L. P ( 2010).

O brincar criativo é uma das características do adolescente sadio e faz parte de seu processo de imaturidade.  Esta capacidade é indicativa de saúde, e pode atravessar toda a existência humana. É na brincadeira que o indivíduo pode ser criativo e se utilizar de sua personalidade integral. E é este poder criativo que permite ao homem criar o mundo, “reinventá-lo”. O adolescente pode tomar posse do poder pela possibilidade de experienciar diversas formas de estar na vida.

O menino ou a menina adolescentes não querem ser entendidos. Essa é uma fase que precisa ser efetivamente vivida e é essencialmente uma fase de descoberta pessoal. Cada indivíduo vê-se engajado em uma experiência viva, num problema de existir” (WINNICOTT, 2005a, p. 115 citado por OLIVEIRA, D.M.;FULGENCIO, L. P ( 2010).

Eles estão se adaptando a um novo modo de estar no mundo, não só um novo corpo, em virtude das transformações biológicas, mas um novo modo de estabelecer relações, e precisam de provisões ambientais quanto às suas necessidades instintuais, relacionais, ideológicas etc.

Apesar de toda essa vontade do jovem de conhecer e explorar situações, o adolescente é, por si só, um ser isolado. Trata-se de um tipo de solidão que visa a encontrar a si mesmo, é parte da procura de uma identidade.

Para Winnicott, SegundoOliveira, D.M; Fulgencio, L. P (2010), os grupos de adolescentes são mais um aglomerado do que um grupo com identidade conjunta bem determinada. Os grupos de adolescentes jovens são ajuntamentos de indivíduos isolados que procuram formar um agregado por meio de identidade de gostos. afinidades, ideias, modos de viver e de vestir comuns.

A base para a formação de grupos é a vida em família. De acordo com Winniccott, é conveniente para o adolescente que o lar original continue a existir, de modo que ele possa rebelar-se contra o mesmo tanto quanto utilizá-lo, de modo que possam ser feitas experiências com grupos diferentes e mais amplos sem a perda do grupo original .

Assim, para que essas ampliações de grupo ocorram e se estendam de modo saudável, o filho deve sentir segurança e apoio no grupo familiar. Sem essa confiabilidade mínima, o crescimento pessoal não ocorre de forma integral, mas com distorções.

De acordo com Frota. A. N.( 2006),  a tarefa dos pais inclui a aceitação do desafio de ser por si-mesmo, assumido pelos filhos, assim como o de estar presente para uma necessidade de retorno à dependência infantil, expressa pelos jovens, que oscilam entre um tímido ou agressivo gesto de maturidade e uma necessidade urgente de se refugiar em um ninho protetor.

De acordo com o mesmo autor, neste processo de idas e vindas, o adolescente encontra as necessidades de afrontar, agredir e também de amar o objeto agredido e violentado. Ele necessita de um ambiente confiável e disponível não só para um enfrentamento e contenção, mas também para servir de um espaço de recolhimento e descanso.

Na prática, a criança precisa sair do colo da mãe. Este afastamento deve se dar em direção a uma área maior, mas ainda sujeita ao controle dos pais: algo que simbolize este colo abandonado. É muito difícil e ameaçador para a criança elaborar os conflitos inerentes ao sair e voltar sem um apoio satisfatório da família.

O adolescente pode se arriscar na vida quando conta com um chão seguro, pronto para ser usado, quando necessário. Os atos agressivos dão um limite ao si-mesmo, reorganizando-o. A fé na indestrutibilidade do ambiente suficientemente bom, o valor da confiança na permanência dos objetos, a possibilidade de reparar “os buracos” feitos no ambiente são importantes para o crescimento emocional dos adolescentes. E, deste modo, o adolescente defronta-se consigo mesmo, cada vez mais intimamente. Na verdade, ele não visa uma licença para ser por si mesmo. Ele busca descobrir-se, encontrar caminhos que o conduzam ao seu ser verdadeiro, ao que verdadeiramente conta.

O adolescente parece ter necessidade de testar a segurança que seu meio ambiente lhe favorece, e isso ocorre, provavelmente, pela existência de sentimentos amedrontadores, novos e fortes, que se fazem presentes para o jovem. Assim, ele precisa saber que pode contar com o cuidado de seu ambiente, assim como com seu interdito e resistência. Deste modo, o jovem passa a amar o que resistiu aos seus arroubos de destruição.

De acordo com Frota. A. N (2006), para Winnicott, puberdade e adolescência não se superpõem, embora uma e outra estejam muito ligadas. A puberdade está diretamente relacionada ao crescimento físico e ao amadurecimento sexual, enquanto a adolescência constitui um período em que o indivíduo se torna adulto, por meio do crescimento emocional. Dentro desta perspectiva, é possível passar pela puberdade sem se tornar um adolescente, uma vez que esta determinação do amadurecimento emocional é virtual, podendo não acontecer efetivamente

Na puberdade, o indivíduo é um agente passivo do processo de crescimento e, para este problema, não existe nenhuma solução, a não ser contar com a passagem do tempo. A puberdade pode constituir um fenômeno corporal e um aumento grande das tensões instintivas. A puberdade pode ser compreendida como uma situação desalojadora, já que introduz o novo, aquilo que rompe com o que está estabelecido, inclusive com um si-mesmo infantil.

Aos onze anos, as crianças defrontam-se com a puberdade e com as novas ideias que pertencem a este período. Ao mesmo tempo em que se veem habitadas por fortes desejos instintivos, estão descobrindo-se capazes de assumir responsabilidade pessoal e começar a lidar com maior potencial de destruição, de reparação e de construção.  Mesmo as crianças saudáveis, capazes de enfrentar as difíceis mudanças associadas à adolescência e ao próprio amadurecimento pessoal, podem ver eclodir na adolescência algumas dificuldades. Não há como escapar das ansiedades decorrentes desta passagem, que será tão mais suave quanto o indivíduo tiver tido sucesso na instalação do si-mesmo, na primeira infância.

Para Frota. A. N (2006), a criança que for bem cuidada, que contar com a ajuda de um ambiente bom e de uma mãe suficientemente boa e que construir um verdadeiro si-mesmo, certamente desenvolverá um padrão pessoal que a habilitará a lidar bem e a tolerar os sentimentos novos e as estranhezas decorrentes das mudanças e das transformações corporais, as quais não consegue controlar.

De acordo com Frota, A.N (2006), para Winnicott existem alguns aspectos que caracterizam a adolescência como um estágio diferenciado do amadurecimento:

»      surge uma potência que pertencia ao domínio da fantasia e que agora pode tornar-se real;

»      surge o poder de destruir e de matar, a possibilidade de prostituir-se, drogar-se, engravidar, fazer escolhas na vida e ter que arcar com suas consequências. 

Perguntas como; “quem sou?”, “do que eu gosto?”, ” o que penso sobre este assunto?” são fundamentais neste período da vida. E o jovem está sozinho nesta busca de conhecer-se, nesta construção de uma subjetividade própria, nesta reinstalação do seu si-mesmo.

Crescer significa ocupar o lugar do genitor, o que traz embutido em si o germe de um ato de violência. De acordo com Winnicott, citado por Frota, A.N. ( 2006), na fantasia inconsciente, crescer é inerentemente um ato agressivo. Se a criança tem que se tornar adulta, então esta transformação se fará sobre o cadáver de um adulto.

Assim, os sofrimentos da adolescência podem ser explicado pela própria imaturidade dos jovens, pelas mudanças que a puberdade traz, pelas ideias novas que tomam o jovem de paixão, e pela desilusão pessoal ao perceber como, de fato, são o mundo e as pessoas.

Além da imaturidade, o idealismo também pode ser apontado como uma das características mais importantes da adolescência, segundo a perspectiva winnicottiana. Os adolescentes não estão familiarizados com a desilusão e, por conta disso, estão livres para construir planos e ideais. O adolescente não tem uma visão de longo prazo própria daqueles que atravessaram várias décadas e estão começando a ficar velhos. Pelo contrário, os adultos não podem abdicar de seu poder. A imaturidade do jovem deve poder continuar sendo, até que possa deixar de ser, em um movimento que venha de dentro para fora.

Outro aspecto importante para a compreensão da adolescência, para Frota, A.N.(2006),  ressaltando Winnicott, é a característica da moralidade nesta época. A moralidade do adolescente é muito rígida e feroz. Nesse sentido, parecem ser três as necessidades do jovem. Em primeiro lugar, a necessidade de evitar falsas soluções. Em segundo, a de desafiar, situando-se como uma possibilidade de ser diferente. Por fim, a indispensabilidade de espicaçar constantemente a sociedade. Ao mesmo tempo, fica claro que compete aos adultos a tarefa de enfrentar o desafio proposto pelos jovens, e manterem-se firmes, servindo de resistência ao que se delimita como um outro si-mesmo.

Os pais também são afetados pelo amadurecimento de seus filhos. Cabe aos pais lembrar-se de que a rebelião é própria da liberdade que se concede aos filhos, e do amadurecimento que eles conquistam, na busca de ser por si-mesmo. Winnicott (1975, p. 196) afirma, segundo Frota, A.N.( 2006) , que “semeamos um bebê e colhemos uma explosão”.

Para Winnicott, não há como evitar, retardar, impedir esse processo, ele é natural e necessário para se chegar à maturidade. No entanto, é um processo que pode ser interrompido por invasões e intrusões devido à falta de provisão ambiental, ou seja, as pessoas que compõem o ambiente (pais ou substitutos) devem estar sempre presentes, transmitindo preocupação e demonstrando que estarão por ali caso o adolescente precise de ajuda, amparo, bem como para perceber as suas necessidades. Em relação a esse aspecto, declara o autor: “De fato, existe somente uma cura real para a adolescência: o amadurecimento. Isso e a passagem do tempo resultam, no final, no surgimento da pessoa adulta” (Winnicott, 2005a, p. 163 citado por Oliveira, D.M.& Fulgencio, L. P ( 2010).

Charles José – Psicólogo Clínico e Psicanalista

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