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SEXO NA TERCEIRA IDADE – REPRESSÃO E PADRONIZAÇÃO DO PRAZER SÃO O CAMINHO CERTO?

 

(Artigo escrito em setembro de 2014)

Ao falarmos sobre a sexualidade do ser humano na terceira idade, muitos se questionaram: “mas velhos pensam em sexo? Velhos fazem sexo? Isso não é imoral? Eles não deveriam se adequar a idade que possuem e parar de pensar nessas coisas?”

Para responder a esses questionamentos fizemos algumas reflexões sobre os atuais estudos sobre o assunto.

Diversos autores da atualidade nos falam sobre o assunto dentro de textos de Geriatria e Gerontologia, buscando uma discussão crítica do tema que leve a uma nova concepção, mais consentânea, da sexualidade nesta fase da existência do indivíduo, que cada vez mais tem sua expectativa de vida aumentada.

Duas teses são discutidas, ou seja, a Teoria do Desengajamento ou Desvinculação e a Teoria da Atividade.

A teoria do Desengajamento ou Desvinculação defende que o indivíduo faça seu afastamento gradual, conforme o envelhecer, das atividades rotineiras e habituais que ele exercia. Já a Teoria da Atividade se posiciona pela não inatividade do indivíduo, devendo este manter-se ativo, ficando o mais próximo dos seus vínculos sociais, pelo maior tempo possível.

A primeira das teorias tem como consequência uma regulação da vida dos indivíduos, reprimindo, através de conceitos aceitos socialmente, a sexualidade na terceira idade. Ela daria respaldo ao pensamento de que o sexo é para juventude ativa e para corpos jovens e saudáveis, devendo os “velhos” se desengajarem ou desvincularem de tais práticas. Os indivíduos que permanecem exercendo sua sexualidade nessa faixa etária seriam vistos como desvirtuadores da prática sexual aceita pela sociedade que dita quais as formas de sexo são as corretas, quando e onde devem acontecer.

Por outro lado, a segunda teoria, teria a desvantagem de exigir dos idosos uma “sempre atividade” como uma condição indispensável para a manutenção da boa saúde e de um processo de envelhecimento mais saudável. Pode haver a tendência de se partir de um pólo de repressão a uma cobrança da manutenção da atividade sexual para os idosos. Sexo não seria mais um elemento de prazer e satisfação pessoal, mas uma condição de se manter a boa saúde física, mental e emocional.

Na terceira idade, tal como nas demais faixas etárias, o indivíduo é parte de uma sociedade que tem seus conceitos e valores sobre a sexualidade. A sexualidade, em outras palavras, não é apenas uma expressão fisiológica do organismo humano, mas, antes de tudo, uma construção social e psicológica, na razão em que, por ser uma sociedade capitalista e consumista, o sexo, bem como outros comportamentos dos indivíduos, precisão ser regulados e controlados. Esse controle existe de forma muito disfarçada, estando ligado, hoje, a uma medicalização de todos os comportamentos “não socialmente aceitos” enquadrados como “patologias”.

Nesse contexto, o indivíduo da terceira idade é visto como alguém que “precisa ser tratado” como se a velhice fosse uma doença. Por não estar mais inserido nesse mercado de trabalho, por não oferecer mais a juventude que a presente sociedade exige, através de seus padrões estabelecidos de beleza, a velhice seria uma “doença”, que deverá ser tratada, medicalizada e, em muitos casos, confinada em instituições asilares.

Se a velhice é uma condição de doença, o sexo, que no contexto social é prática de pessoas saudáveis e jovens, não poderá ocorrer na última fase da vida. Ser velho implicaria em uma desvinculação do sexo.

Sabemos ainda que, por outro lado, um novo olhar da gerontologia, bem como da geriatria começa a despontar sobre esse assunto. O velho passa então a ser interpretado como alguém que precisa se manter ativo, inclusive na questão da atividade sexual. Pílulas foram criadas para medicalizar os efeitos da idade sobre as funções sexuais (ereções) dos homens idosos. Cremes vendidos para facilitar a perda de lubrificação vaginal das mulheres na terceira idade. É ainda o tratamento, ou melhor, a regularização da sexualidade, dizendo qual a melhor forma de exercício da mesma.

A sexualidade do ser humano, em todas as faixas etárias, deve ser vivida de acordo com seus desejos e contexto pessoal, não devendo ser padronizados tipos ideais de relacionamentos ou práticas sexuais pela sociedade, salvo quando essas práticas coloquem em risco a integridade física e psicologia de outros, como, por exemplo, a pedofilia.

Na terceira idade é importante dar ao indivíduo a oportunidade de exercer, ou não, sua sexualidade, da forma que ele sempre exerceu e que lhe dá prazer. Necessário se faz a desconstrução da idéia de que “sexo é para jovens” e ampliar a noção de ato sexual, deixando de genitaliza-lo para torná-lo parte de um conjunto maior que pode ser representado pelos sentimentos e ações de afeto, carinho, companheirismo, carícias e outros mais gestos típicos que caracterizam nossa espécie humana.

 

Autor: Charles José – Psicólogo Clínico, Psicanalista e Sexólogo.

Referências

SILVA, Viviane Xavier de Lima & MARQUES, Ana Paula de Oliveira & LYRA-DA-FONSECA, Jorge Luiz Cardoso. Artigo: Considerações sobre a sexualidade dos idosos nos textos gerontológicos. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., 2009; 12(2): 295-303;

Leia o artigo referenciado acessando:

http://www.crde-unati.uerj.br/img_tse/v12n2/pdf/art_12.pdf

 

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