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VIVER NÃO TEM REMÉDIO

 

Para tudo tem remédio. Quem, na infância, não ouviu essa frase da boca de um parente mais velho, de um avô, de uma avó? Habitualmente, terminava pela expressão “meu filho”, acentuando a característica de afago carinhoso da frase:

– Para tudo tem remédio, meu filho.

Entendíamos que era um consolo pelas dificuldades que enfrentávamos e que só o sábio tempo saberia cicatrizar as marcas das feridas que, aos olhos de hoje, nos trazem um sorriso condescendente: a bola furada, a bicicleta batida, a viagem perdida.

A época atual, marcada por uma forte ideologia biologizante, quer transformar esse carinho em verdade científica. Tomando a sério a expressão “para tudo tem remédio”, querem nos levar a concluir que todo o problema é doença, pois é doença aquilo que se trata com remédio.

Surgem livrinhos para ensinar as pessoas a se autodiagnosticarem. São amplamentes difundidos em serviços de saúde. Ensinam, por exemplo, a detectar a depressão. Se você responder “sim” a mais de três, estará feito o diagnóstico: Você tem dormido demais? Tem tido insônia? Você engordou nos últimos meses? Andou emagrecendo? Tem notado uma certa apatia, desinteresse? Tem se sentido excitado?, etc.

O teste é ironicamente perfeito: ninguém escapa. Não há possibilidade de você não ser enquadrado nesse gênero de questionário. Feito o veredicto, na página seguinte é indicado o tratamento – algum remédio novo e avançado; e tranquiliza-se aquele que sofre, explicando-lhe que a depressão é uma doença como outra qualquer, como quebrar uma perna ou contrair um vírus, e que a pessoa não é em nada responsável pelo seu sofrimento. Este é o ponto-chave: a irresponsabilidade pelos próprios sentimentos.

Não misturemos, nesta crítica, o imenso avanço verificado na farmacologia nos últimos anos. O problema é a ideologia que veio junto. Trata-se do neodarwinismo, que busca na biologia a explicação de todos os afetos. O neurobiólogo português Antonio Damásio, professor nos Estados Unidos, e o sociólogo nipo-americano Francis Fukuyama contribuem à fama dessa visão, em alta no mercado daqueles que acham viver muito complicado. É melhor, como os animais, já trazer no código genético a lição de casa feita do que se deve ou não desejar, amar, de como gozar plenamente, como sugere Fukuyama em A grande Ruptura.

A menina apaixonada poderia corrigir, com medicamentos, o namorado capenga, transformando-o em um príncipe potencialmente, magro e bem-humorado ao lhe oferecer coquetéis repetitivos de Viagra, Xenical e Prozac. É ridículo, mas não estamos longe desse tipo de certeza. Médicos começam a ser agredidos em ambulatórios públicos quando se recusam a prescrever remédios, a seu ver, inadequados ao paciente e que, no entanto, lhes são violentamente exigidos, como se os não dar fosse negar, ao paciente, uma felicidade de propaganda.

O fenômeno de controle biológico do bem-estar e da sexualidade também apresenta repercussões sociais. Quem não se lembra da história do menino de seis anos de idade que, ao mostrar a língua para uma professora de uma escola norte-americana, foi punido como pervertido sexual, pois estaria fazendo uma proposta indecorosa? Procura-se padronizar tudo, cada gesto, cada cumprimento. Triste fim daquilo que ficou conhecido como politicamente correto…

E quando alguém comete um desatino, como matar a namorada, e esse alguém é uma pessoa como todo mundo, sem a caricatura do meliante, imediatamente se buscam explicações médicas, como se os “normais” estivessem a salvo de desatinos. Não, não há como transformar a vida em algo irresponsável, insosso, inodoro, incolor, em que tudo teria hora e lugar predeterminados.

Se doença tem remédio, a vida não tem; ela é um renovado contrato de risco. Fico com a máxima do psicanalista Jaques Lacan: “De nossa posição de sujeitos somos sempre responsáveis”. Surpresas, encontros, ocorrem todos os dias. Contudo, o sentido que damos a eles é de nossa responsabilidade.

Quando crescemos, podemos dizer ao vovô:

– Viver não tem remédio. Que bom!

 Retirado do livro “Você quer o que deseja?”, do autor Jorge Forbes (Psiquiatra e Psicanalista), publicado pela editora Manole.

 

 

Charles José – Psicólogo Clínico, Psicanalista e Sexólogo.

 

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